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Os impactos do colapso da FTX

Os impactos do colapso da FTX

Os preços não deixam os investidores muito animados, mas esse momento de stress do mercado é uma chance de testar a potência dos indicadores.

Paula Reis
Content Creator
23/11/22

Com a falência da exchange FTX, a indústria de criptoativos e muitos investidores recém chegados a este mercado presenciaram a insolvência mais chocante desde o caso da Mt Gox, que foi a maior exchange por volume de usuários e negócios diários e que faliu após sofrer um hack em 2014. 

Como é sempre dito aqui, os dados on-chain auxiliam a entender o comportamento dos investidores e participantes do mercado. Principalmente em momentos de medo e cautela, eles podem ser extremamente esclarecedores para entendermos o que está por vir. 

Antes de abordarmos os assuntos principais deste artigo é importante salientar que o espaço de ativos digitais é um mercado livre e que o evento da FTX representa uma falha em uma entidade centralizada e não na tecnologia criptográfica ou na blockchain. Não há danos para o Bitcoin em si, e o episódio traz como efeito colateral a eliminação de todos os excessos e da má conduta de um caso isolado, além do efeito positivo de incentivar as pessoas a entender e aderir à autocustódia, tornando-as cada vez mais conscientes da solução do mercado de criptomoedas para os problemas do sistema monetário tradicional. 

Partiremos, então, do preço do Bitcoin (BTC) e seus movimentos na análise gráfica e complementaremos o estudo com a análise de dados on-chain. 

Os indicadores on-chain utilizados neste artigo são: NVT, Inflow & Outflow, MVRV e Oferta total mantida por hodlers de longo prazo.

O movimento do preço

As linhas tracejadas em amarelo mostram a máxima e a mínima do mês de novembro até agora. Os US$ 21.480 são o topo que antecedeu a queda da semana do dia 07/11 com o pânico extremo após notícias da FTX, enquanto que o fundo de US$ 15.476 é onde o BTC se mantém em consolidação desde então.

Desde junho deste ano que o preço do BTC não tinha tamanha amplitude. 

Graficamente, a lateralização que já vinha desde junho, e com dificuldade de formar fundo, só encontrou mais um patamar para seguir em tendência de baixa com as próximas regiões de liquidez em US$ 13.400 e US$ 12.000.00

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Fonte: Vector Pro

O NVT 

Essa métrica é calculada pela relação entre o valor da rede e todas as suas transações — que é calculada como uma capitalização de mercado da criptomoeda —, dividida por seu volume diário transacionado e cotado em dólar (USD).

O indicador também é conhecido como “caçador de bolhas”, pois pode indicar sobrecompra quando está igual ou acima de 95. Para que essa proporção seja alta, a capitalização de mercado do BTC deve superar substancialmente o seu volume de transações, sinalizando que o preço esteja inflado sem uma justificativa plausível. Isso também ocorre no caso de uma desvalorização injustificada da moeda.

Em 05/11, o NVT atingiu pico de 152,117, sendo que ele só havia trabalhado acima disso em junho deste ano, quando o preço caiu 37%, voltando abaixo de 95, sugerindo que o preço já teria atingido a sua mínima. 

Porém, em 19/11 retornou a superar a linha de sobrecompra com pico em 137,2829. Neste mesmo dia, o preço trabalhava em US$ 16.500.00 e o pico de sobrecompra do NVT sugere maiores quedas.

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Fonte: Vector Pro

O inflow e outflow das exchanges

Em meio às incertezas de liquidez da FTX e a preocupação de que tal problema resultasse em insolvência de mais exchanges, já era possível prever uma grande evasão de criptomoedas para as carteiras pessoais antes mesmo de observar o Outflow nos dados de rede.

O indicador Outflow mostra picos de saída das exchanges nos dias 04, 09, 11 e 17 de novembro. Neste período, o indicador descolou cada vez mais do Inflow — a métrica que nos mostra o oposto: a entrada de recursos nas exchanges..

Porém, o que mantém o clima de tensão dos mercados é o pico Inflow do dia 18/11, que dividiu opiniões, onde alguns sugeriram ser uma ressaca ocasionada ainda pelo caos da FTX — em que pessoas estariam enviando os seus saldos para as exchanges com boa liquidez com intenção de se desfazer de suas posições — ou apenas entradas e saídas organizadas por carteiras internas das próprias exchanges, num procedimento de rotina de transferências entre carteiras frias e carteiras para comprovação de suas reservas.

O fato é que neste dia houve a entrada de mais de 108.000 BTC em exchanges e o movimento descolou consideravelmente do saldo de saídas do dia (topo marcado com a flecha amarela). Tal movimento só se repetiu em maio e junho deste ano.

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Fonte: Vector Pro

MVRV

O MVRV é a relação entre market cap (capitalização) e o custo total de aquisição de todos os criptoativos em circulação no mercado.

É interessante observar que, no mês de outubro, ele trabalhava abaixo de 1. No dia 04/11, na semana que antecedeu a queda durante o desenrolar das notícias da FTX,  formou topo e tornou a cair atingindo 0,75 — região visitada somente durante a capitulação do mercado de baixa em 2018. 

GráficoDescrição gerada automaticamente
Fonte: Vector Pro

Oferta total mantida por hodlers de longo prazo

Para finalizar, vamos verificar o comportamento dos Detentores de Longo Prazo, que representam os participantes estatisticamente menos propensos a gastar diante da volatilidade. 

A sua oferta diminuiu em 84.560 BTC pós-FTX, o que continua sendo uma das quedas mais significativas do ano. 

Observe no gráfico abaixo que os declínios no fornecimento de LTH ultrapassam 100 mil BTC em três meses consecutivos: maio, junho e julho deste ano. Isso torna a queda atual notável, mas não a maior, embora ainda esteja em andamento.

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Fonte: GlassNode

Temos que considerar novamente – pois já constatamos isso no relatório passado, em outro indicador - que muitos hodlers resistiram às quedas, mas podem ter se tornado inseguros sobre a estabilidade de preços no futuro. Para estes investidores, o nível de US$ 23 mil poderia ser uma zona saudável de venda, então é possível termos interesse de venda nessa faixa.

Resumo e Conclusão

Ao observar as métricas que descrevem o comportamento do investidor de Bitcoin, percebe-se que várias estão sinalizando stress do mercado e um volume incomum após a derrocada da FTX.  

Boa parte dos hodlers, que até então estavam firmes em suas posições, passaram a se movimentar, sugerindo que houve uma redução na confiança em larga escala.

Voltamos a um cenário de convergência dos dados on-chain e da leitura gráfica, já que os indicadores NVT e MVRV apontam maior probabilidade de queda, assim como o canal de baixa respeitado no gráfico do BTC.

O impacto turbulento do colapso da FTX continua a se manifestar, e resta saber o quão extenso ele será e quando a confiança dos investidores será retomada.

DISCLAIMER

Paula Martins dos Reis – Analista CNPI-T 3012

1) Este relatório de análise foi elaborado pela analista de acordo com todas as exigências previstas na Resolução CVM 20/2021, tem como objetivo fornecer informações que possam auxiliar o investidor a tomar sua própria decisão de investimento, não constituindo qualquer tipo de oferta ou solicitação de compra e/ou venda de qualquer ativo. As informações contidas neste relatório são consideradas válidas na data de sua divulgação e foram obtidas de fontes públicas. O Grupo Ripio não se responsabiliza por qualquer decisão tomada pelo cliente com base no presente relatório. 2) O(s) signatário(s) deste relatório declara(m) que as recomendações refletem única e exclusivamente suas análises e opiniões pessoais, que foram produzidas de forma independente, inclusive em relação ao Grupo RIpio ou e que estão sujeitas a modificações sem aviso prévio em decorrência de alterações nas condições de mercado. 3) A analista independente está obrigada ao cumprimento de todas as regras previstas no Código de Conduta da APIMEC para Analistas de Valores Mobiliários. 4) Os ativos apresentados neste relatório podem não ser adequados para todos os tipos de cliente. Antes de qualquer decisão, os clientes deverão realizar o processo de suitability e confirmar seu perfil de investidor. Este material não sugere qualquer alteração de carteira, mas somente orientação sobre produtos adequados a determinado perfil de investidor. 5) A rentabilidade de produtos financeiros pode apresentar variações e seu preço ou valor pode aumentar ou diminuir num curto espaço de tempo. Os desempenhos anteriores não são necessariamente indicativos de resultados futuros. A rentabilidade divulgada não é líquida de impostos. As informações presentes neste material são baseadas em simulações e os resultados reais poderão ser significativamente diferentes. 6) Fica proibida sua reprodução ou redistribuição para qualquer pessoa, no todo ou em parte, qualquer que seja o propósito, sem o prévio consentimento expresso da analista. 7) A Avaliação Técnica e a Avaliação de Fundamentos seguem diferentes metodologias de análise. A Análise Técnica é executada seguindo conceitos como tendência, suporte, resistência, candles, volumes, médias móveis entre outros. Já a Análise Fundamentalista utiliza como informação a capitalização de mercado, dados on chain e suas projeções. Desta forma, as opiniões dos Analistas Fundamentalistas, que buscam os melhores retornos dadas as condições de mercado, o cenário macroeconômico e os eventos específicos da empresa e do setor, podem divergir das opiniões dos Analistas Técnicos, que visam identificar os movimentos mais prováveis dos preços dos ativos, com utilização de “stops” para limitar as possíveis perdas. 8) O investimento em criptomoedas é indicado para investidores de perfil moderado e agressivo, O investimento em criptomoedas é um investimento de alto risco e os desempenhos anteriores não são necessariamente indicativos de resultados futuros e nenhuma declaração ou garantia, de forma expressa ou implícita, é feita neste material em relação a desempenhos. As condições de mercado, o cenário macroeconômico, os eventos específicos da blockchain e do setor podem afetar o desempenho do investimento, podendo resultar até mesmo em significativas perdas patrimoniais. A duração recomendada para o investimento é de médio-longo prazo. Não há quaisquer garantias sobre o patrimônio do cliente neste tipo de produto. 9) O investimento em Mercados Futuros embute riscos de perdas patrimoniais significativos, e por isso é indicado para investidores de perfil agressivo, ou outro instrumento derivativo, podendo consubstanciar um índice, uma taxa, um valor mobiliário ou produto físico. É um investimento de risco muito alto, que contempla a possibilidade de oscilação de preço devido à utilização de alavancagem financeira.